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segunda-feira, 2 de maio de 2022

MIUT - Madeira Island Ultra Trail 85k

Há muito sonhado, e demasiado adiado.


Finalmente fui ao MIUT, e pude verificar que esta é sem dúvida a prova rainha do trail em Portugal, está 1 nível acima em tudo: em organização, em beleza, em dureza...

Fui aos 85, "só" aos 85 e chegou para ficar completamente enamorado pela prova.





À hora marcada foi dada a partida em São Vicente ao som de "Highway to hell" dos ACDC, uma música que faz jus ao que nos esperava, embora estivéssemos num autêntico paraíso. Arranquei calmo, a não me entusiasmar até porque nem dá para isso já que pouco depois da partida apanha-se logo uma subidinha daquelas que faz transpirar!! 

O 1º segmento até à Ribeira Grande é bastante fácil, mas de tão descontraído que ia apanhei um susto, quando coloquei um pouco mal o pé e senti de imediato uma dor bastante aguda.. parei imediatamente e depois de respirar fundo segui mas um bocado coxo e com dificuldades em equilibrar na estreita levada em que entrámos de seguida...

Lá me recompus, e passei no abastecimento onde não demorei tempo nenhum, para entrar de imediato na 1ª grande subida da prova com os tradicionais degraus, que nos iriam levar até à Encumeada. O plano era colocar um ritmo constante, mas ficou só mesmo por isso, pela ideia!! porque com tanta gente era impossível ir ao ritmo que queria, bem como ultrapassar. É o que é... siga!!


Abastecimento da Encumeada, mal entro encosto logo para tirar a camisola de mangas que levava por baixo da tshirt, já ia cheio de calor. Depois de tratada esta parte, inicio o reabastecimento dos flasks, comer qualquer coisa e tomar um café. Encontrei o João Fonseca que estava nos 115km, super bem disposto e trocámos umas palavras. Estou despachado e sigo. Cerca de 15km separam-me do Curral das Freiras, e é aqui onde se situa uma das partes para a qual mais me alertaram: a descida pro Curral. 

Desço um bocado e dou início à famosa subida do pipeline. Liga-me a Cidália, que está desde casa a acompanhar ao minuto a minha prova e do Paulo Sousa que está nos 115. Pergunta-me se vou bem, porque passei no controlo da Encumeada em 2º lugar a apenas 19 segundos do 1º classificado!! WHATTTTTTTT???????????? lol Opá eu vou bem, mas não exageremos !!!!!

A prova!! Passei em 2º da Geral 😂


Conquistada esta subida, sabia que agora era um bocado que dava para rolar - vantagem de ter lido e relido todos os relatos das 6 passagens pelo MIUT do Filipe Torres!! E se dá para rolar, então vamos a isso!! Vou a correr e no rosto levo um sorriso "`à la Courtney Dawalter"!! Vou a sentir-me bem, em perfeita harmonia com o trilho. O Richard liga-me para saber como estou, e a melhor forma de lhe dizer foi que me sentia uma criança num imenso parque de diversões. Era tal e qual como me sentia.


E com isto chego ao início da tal descida para o Curral.. Aqui redobro a atenção, o meu pé ainda não está em condições. Nas zonas piores vou com muita calma, mas faço o resto da descida a curtir!!

Se a descida foi fixe, chegado lá abaixo aqueles km em alcatrão até ao abastecimento foram uma tremenda seca....

Finalmente alcanço o abastecimento. Descanso um bocado, aproveito para comer que já vou com fome, queria Coca-Cola mas só têm Pepsi... bahhhhhh 

Aqui encho os 2 flasks que já trazia, e outro extra por causa da brutal subida que temos pela frente, até ao Pico Ruivo!

Saio do abastecimento confiante, e mantenho ritmo sem abusar. Dou início à subida onde tento manter uma cadência constante e assim consigo ir. Consegui ir.... até fazer PUMMMMM. Pouco depois das Torrinhas, comecei a sentir as forças a fugir, devem ter ficado algures a meio da subida. Os metros começaram a demorar mais a passar, cada passo custava o dobro a dar. Oh porra... até vinha tão bem, tinha de rebentar.. Depois de olhar pro relógio milhentas vezes a ver quanto faltava para o abastecimento, sento-me numa pedra. Pronto.. fiquei sem energia, estou KO, vou ficar aqui até ter energia novamente. Só que nesse preciso momento toca o telefone, é a Ana Bela e os miúdos a saber como estou, e depois de umas palavras animadoras e reconfortante, lá me levanto e faço-me ao caminho, afinal de contas a casa do Pico Ruivo já está ali tão perto.....

Entro, está um ambiente acolhedor, quentinho! De um lado estão uns atletas a descansar, parecem estar a dormir!! Do outro sentados, a comer, recostados a descansar também. Há 2 ou 3 que já por ali ficam... Dirijo-me às simpáticas senhoras que lá estão, e peço um chá. Faço umas sandes de pão com marmelada, e arranjo um espacinho para me sentar. Depois daquela sandes foi outra, e mais outra, e mais outra. Batatas fritas, banana e laranja. Mas o que me soube melhor foi mesmo o chá, reconfortou o estômago e a alma! Saio cá para fora, está um frio brutal. Aperto o impermeável, coloco as luvas e arranco que não sou dali. 

Este bocado entre os picos já conheço, fiz em setembro quando estive de férias na ilha. Este bocado é fantástico, de uma imponência e belezas impressionantes. 






Logo a seguir às escadas metálicas páro. Já me afastei do Pico Ruivo, já vou com calor, tenho de tirar o impermeável. Sigo mais confortável, no meio de um comboio de franceses. Por falar nisso, nesta prova parece que estamos em França, estão em maior número que os portugueses. Em cada 10, uns 7 são gauleses. Allezz allezz, chegamos ao Areeiro, apanhei melhor tempo que em Setembro o que permitiu desfrutar daquelas vistas maravilhosas. 

Foto do Aurélio David, espectacular


Até ao Chão da Lagoa é um tiro, bom para correr. Entro no abastecimento, já vou com fomeca!! Vou buscar uma taça de arroz com carne picada, e sento-me a comer. Não muito longe estava um aquecedor, mas que bem se estava ali. À falta de Coca-Cola, acabei com meia garrafa de Pepsi - quem não tem cão caça com gato, certo?!

Só que de tão bem que se estava ali, provavelmente estive tempo a mais, o corpo adormeceu, e aqui mudou por completo a prova... Aliado ao normal cansaço, comecei a sentir a falta de amortecimento dos ténis. Os Sense Ride que tanto gosto, que tanta confiança me dão, mas que provavelmente não serão os melhores para estas distâncias. Até à Portela comecei a ter dificuldades em correr, as dores por baixo dos pés começavam a incomodar. Como se isto não bastasse, com o cair da noite à chegada à Portela, caiu em cima de mim uma carga de sono que parecia que não dormia há 3 noites.... Só me apetecia dormir, entrei no abastecimento e encostei-me lá numa cadeira, deitei a cabeça em cima das penas todo dobrado, mas mais uma vez o telefonema de casa deu-me o boost para arrancar. Porto da Cruz é já ali, são "só" cerca de 6km....

Pois, 6 km mas mal saímos do abastecimento entramos num caminho real, bastante inclinado e húmido.... TOP mesmo!!! Depois do caminho real, uma levada, pois claro. E depois dessa levada, toma lá mais outra!! Caraças para isto um gajo já vai todo lixado e não facilitam nada... Ai queres facilidades??? Então toma lá uns quilómetros em alcatrão para aprenderes!!! Pelo caminho ainda encontro a Andreia, que estava à espera do seu Paulo, que eu sabia que já não vinha nas melhores condições..

Chego finalmente ao abastecimento, assim que entro sento-me na 1ª cadeira que encontro. Vem uma voluntária bastante simpática ver se estou bem, digo-lhe que já só vou estar bem quando conseguir deitar-me na minha cama, pergunta se me pode trazer alguma coisa e agradeço e peço um chá. Devia ter comido, mas o sono e o cansaço já eram tantos que nem tive vontade.

Saio do abastecimento depois de mais 1 telefonema, já são só 16km até Machico mas não consigo correr, portanto serão cerca de 3h. Vou na conversa com um espanhol de Barcelona, é a primeira vez dele na Madeira e está a adorar também. Mas se eu não vou bem ele vai pior, e assim que chegamos às primeiras escadas ele fica para trás. É assim, amigo não empata amigo e hasta la vista, arrasto-me por ali acima a fazer um esforço para mexer as pernas e não fechar os olhos.... Alcanço finalmente o Larano...


Tantas histórias que já ouvi do Larano, novas vidas que por lá se ganham, mas quem mais por ali habita nas alturas do MIUT são os mortos vivos e hoje sou um deles também. Cada passada que dou é menos 1 que falta para a meta, ou para a cama que tanto quero.... Mas caramba, quantos quilómetros tem o Larano?? Isto nunca mais acaba. Sou passado, ainda há uns mais vivos que eu, mas também ainda consigo passar, há sempre quem esteja pior.... 

Finalmente saio do Larano, hei-de voltar e conseguir passar de dia para ver se realmente é tão belo como dizem, mas agora foi com alívio que virei pra Boca do Risco, para depois apanhar a infindável levada de Machico. 

Não sei qual foi pior, o Larano ou esta levada, em que já se vêem as luzes de Machico ao fundo mas há sempre mais uma curva e outra, que nos afastam quando parece que é já ali... 

Por fim saio da levada, uns metros de alcatrão e as escadas que nos colocam lá em baixo, com a meta já ali...

Finalmente, volto a correr. O objectivo está prestes a ser cumprido, o sonho concretizado, a meta do MIUT cruzada.



Não correu como esperava, mas no papel os imprevistos nunca acontecem e corre tudo como planeado.

Fui vergado, bem vergado, mas não fui vencido. 

Desafiei o MIUT, se calhar em dada altura substimei-o, e ele colocou-me bem no meu lugar, mas conquistei-o.


O domingo foi passado com os amigos, a hidratar e a fazer o rescaldo da prova.


E ainda consegui tirar uma foto com a melhor atleta do mundo, a Courtney claro!


O meu 1º MIUT está feito, irei voltar é certo. Há erros que não voltarei a cometer, mas quero voltar a viver tudo novamente, quero voltar ao meu parque de diversões. Já adorava a ilha da Madeira, e agora fiquei completamente apaixonado. 



Porque... existem as outras provas e depois... há o MIUT


quinta-feira, 4 de julho de 2019

Ultra Sesimbra 2019



Pelo 5º ano seguido marquei presença nesta prova. Nas 2 primeiras participações na distância mais curta, e nos seguintes na distância Ultra.
De todas, acho que esta foi a mais difícil não devido à elevada dificuldade do percurso, que basicamente é a mesma dos anos anteriores, mas devido ao calor extremo que se fazia sentir este ano.

Ao final da tarde já no conforto do sofá em casa, escrevi o seguinte no Facebook:
"Agora que o Ultra Trilhos Rocha da Pena - UTRP vai ser feito de noite, o Ultra Sesimbra está bem lançado para ganhar o prémio de prova mais quente do ano 🔥
Prova duríssima, o percurso de sempre mas debaixo de um braseiro
Ah, e não devia ter ido fazê-la 2 semanas apenas depois do UTSM - Ultra-Trail de São Mamede..."

Pois.... aliado ao calor que se fazia sentir, passavam somente 2 semanas depois do UTSM e quer se queira quer não, não é tempo suficiente para recuperar convenientemente. Mas era difícil ter esta prova à porta de casa e não ir...

Assim sendo, no dia da prova o ritual foi o de sempre: quando faltava cerca de 1h para a prova saí de casa, passados 20 minutos estava a estacionar em Sesimbra e de seguida a levantar o dorsal. De todos os lados, pessoal amigo e conhecido a cumprimentar, trocar 2 dedos de conversa e a desejar boa sorte para a prova.

Perto das 8h estou na zona de partida, como sempre na Praça da Califórnia. 
A partida é dada à hora certa e, este ano ao contrário dos anos anteriores, uma boa novidade: não noa vão meter logo de início pela praia; para mim isso não fazia sentido nenhum e finalmente este ano parece que a organização percebeu isso!!

Conhecendo bem o percurso da prova, arranco com calma, sem me entusiasmar com os primeiros km de alcatrão! Passado o par de km a subida para a pedreira para depois entrarmos no trilho de acesso à Ribeira do Cavalo, e com o bafo que se fazia sentir já começava a sentir o calor a apertar!!
Este trilho para a Ribeira do Cavalo não é de uma tecnicidade elevada, mas aqui apercebi-me que fiz a escolha de ténis errada!! Para esta prova levei os já "velhos" Salomon S-Lab Sense 6 que contam já com cerca de 600 km, como tal a sola já apresenta algum desgaste e não agarram como dantes. Pois, pois não, e numa curva do trilho lá me esbardalhei!!! Nada de grave, levantei-me e segui trilho abaixo, para logo de seguida dar início à subida cascalheira acima.
Aqui em fila, sem espaço para grandes acelerações, cheguei ao topo e suava em bica, o suor escorria que parecia que me tinham despejado um balde de água em cima!!! Cheguei ao 1º abastecimento da prova e parei: desconfio que terei sido dos pouco a fazê-lo, mas com o calor que estava era essencial hidratar muito e bem!

Segui caminho, agora um segmento mais rolante até ao Cabo Espichel. Pensei que aqui não iria sentir muitas dificuldades, mas com o calor que começava a fazer-se sentir cada vez mais o cansaço ainda do UTSM começou a aparecer... 
Decidi abrandar um pouco o ritmo, e fiz uns bocados a caminhar... Chegue ao Cabo e enchi flasks, comi banana, laranja e melancia e arranquei.

Este bocado é uma seca... Seguir pelos trilhos junto à orla costeira, sem sombra alguma e com o calor cada vez mais forte... Os kms parece que não passavam, e o terreno com areia fina não ajuda em anda...

Na praia da Foz há um abastecimento, e aproveito para comer e refrescar. Estavam mais de 30º, um dia bastante quente, e este percurso quase não tem sombra; esta prova feita em Fevereiro/Março era uma coisa, mas num dia destes....
Prossigo caminho, cada vez mais farto do percurso... Agora seriam cerca de 8km a subir, não muito acentuado mas como se costuma dizer "não mata mas mói"...
A meio caminho um abastecimento extra, mesmo em boa hora para voltar e encher flasks... 
No abastecimento da pedreira demorei muito tempo. Chegou a passar-me pela cabeça a ideia de desistir; já fiz esta prova imensas vezes, treino nesta zona quando quero e estava a ser um sacrifício fazê-la, não estava a tirar nenhum prazer... Comi, bebi, andei para trás e para a frente, e decidi seguir, a correr ou a caminhar, ia indo e ia vendo!!

Saio da pedreira e sigo a caminhar, mas num passo rápido. Chegado ao topo da pedreira, entro no estradão a descer e inicío um trote. Vou cansado, está imenso calor e começo a alternar trote e caminhada até chegar ao trilho que sobe ao castelo, pois aqui já seria impossível pensar em algo mais que fosse caminhar!!!!

No castelo junto ao abastecimento tem uma torneira, e quando lá chego completamente esgotado, tomei quase um banho completo! Depois dirigi-me para o abastecimento, e sou recebido pela Mena que tinha feit comigo muitos kms no UTSM!! Sempre bem disposta, mandou-me logo sentar à sombra e tratou de me arranjar uma sandes, e coca-cola fresca!!! Soube pela vida!! Ainda comi também umas bolachas, e já recomposto arranquei para os últimos 10km.
Continuei a alternar trote e caminhada, já não dava mais! A caminhar tentava manter um ritmo vivo, mas era o possível! O percurso continuava a não oferecer qualquer sombra, e o corpo já não dava mais... Agora era gerir e chegar ao fim....

Acho que foi também neste segmento que decidi que nos próximos anos não volto a fazer a Ultra distância nesta prova; o percurso é basicamente o mesmo todos os anos, sem grande interesse (as paisagens são bonitas na sua grande parte, mas torna-se desinteressante) e cansativo psicologicamente... Provavelmente volto, mas para fazer a distância de 21km...

7h depois do início cheguei à meta. É um resultado péssimo, apenas justificado pelo cansaço ainda do UTSM conjugado com o elevado calor que se fez sentir, mas ainda assim muito muito mau....
Família LH Ginásio




terça-feira, 26 de junho de 2018

Louzan Trail 2018

A expectativa era enorme. Nunca tinha corrido na serra da Lousã, sabia que era recheada de excelentes trilhos, belos e muito técnicos e, que a prova ia ser duríssima! Como publiquei na página uns dias antes, o gráfico com o perfil da prova e a tabela com a localização dos abastecimentos (muito importante esta tabela!!) e desníveis parciais e acumulado, metiam respeito, punham-me em sentido!


Foi então com expectativa, algum medo, respeito e alguma confiança que arranquei no sábado para a Lousã na companhia do Rui Nascimento e do Eduardo. 
Viagem de pouco mais de 2h e chegámos à Lousã. À chegada só olhava à volta, a olhar para os grandes montes que teríamos de subir no dia seguinte!!! 

Depois de levantar o dorsal no secretariado, jantámos por ali mesmo, num jardim situado mesmo ao lado da zona da prova. Tínhamos levado comida de casa, pelo que foi em modo pique-nique que comemos o jantar!!

Depois do belo repasto fomos preparar o "quarto" no solo duro; havia 2 locais disponíveis, mas apenas 1 estava publicado no guia do atleta, talvez por isso quase ninguém tenha ido para os bombeiros, que eram ali ao lado e ofereciam condições muito boas! À chegada reparamos logo num monte de colchões disponíveis, que maravilha!! Depois de tudo preparado, ainda fomos dar uma pequena caminhada e ouvir um bocado do briefing, e por fim fomos descansar.

Alarme do relógio toca às 4.30', mas já estava acordado. Acordado foi um estado em que estive muitas vezes durante a noite! Não é que houvesse barulho pois era pouquinha gente ali a dormir, mas não gosto de dormir em saco cama...
Levantar, vestir e arrumar tudo no carro e tomar o pequeno-almoço que trouxe preparado de casa :) Eram 6 menos 15' estava pronto e fui pra zona da partida. Ao chegar lá aparecem-me de surpresa o meu Pai e a Helena! Não sei quem é mais maluco, se eu ou eles que acordaram às 3.30 para estar ali àquela hora!!!



Cumprimentar o pessoal, concentrar para o que aí vem e é dado o sinal de partida!

O início dentro das ruas da Lousã tende a ser um pouco rápido e deixo-me ir, mas sempre sem nunca forçar, até que ao 1,5k da prova entramos em trilho. Como só podia ser, a subir pois claro!! 
Daqui até ao 1º abastecimento foi praticamente sempre a subir! Subir subir subir, daquelas que se olha para a frente e não se vê o fim!


No 1º abastecimento comi uns pedaços de laranja, banana, enchi os flasks e segui. Este abastecimento estava colocado aos 8k, olhei para o reógio e já marava mais de 1000D+!!! QUE BRUTALIDADE!!
Se as subidas pareciam intermináveis, as descidas, algumas bastante técnicas metiam-me em sentido. Se calhar até demais, se calhar um dos erros que cometi nesta prova que me fizeram perder tanto tempo foi o excesso de respeito pelas subidas, medo das descidas e de fazer alguma entorse novamente... 

O 2º abastecimento estava antes dos anunciados 17k, e a partir daqui percebi que provavelmente se iria repetir com a localização dos abastecimento a mesma coisa que já tinha acontecido noutros lados....
Prossegui a minha prova, o calor a aumentar brutalmente e aproveitava cada fonte que apanhava para refrescar, de cima a baixo! 

Com o amigo Nuno Santiago a descansar por uns segundos!!!
Aos 18,5 chego ao Talasnal, novo abastecimento e muito gente por ali, incluindo o meu Pai e a Helena. 

Eles estão a curtir o evento, eu tou a aperceber-me que a prova não está a correr nada de feição mas se bem me lembro dos tempos de corte terei tempo para seguir. Saio daqui acompanhado por outro atleta, o João, e colocamos um ritmo calmo mas constante, vamos correndo quando é mais a direito e poupamo-nos nas subidas. Um pouco à frente somos apanhados pela Isabel e a Su e seguimos todos juntos uns quantos km, até que ele nos deixa numa das muitas passagens pelo rio, onde eu parei para refrescar-me. 
De subidas a pique e intermináveis passávamos a decidas muito técnicas e que apenas acabavam quando chegávamos ao rio, para depois andar por ali a passar de uma margem para a outra até se seguir nova subida!
Com o calor a apertar cada vez mais, começamos a andar em troços mais abertos e expostos; as ondas de calor a bater nas pedras de xisto sentiam-se a vir contra nós..A passagem pela água era um alívio, pois servia para refrescar. 




Aos 30,9k chego ao Candal, supostamente seria aos 29,5k! Como uma sandes de panado e uns pedaços de banana e laranja, e enquanto isso o meu Pai e a Helena, sempre a curtirem!!!, enchem-me os flasks de água e com o Tailwind. O voluntário que lá estava diz que o próximo abastecimento era dali a 5k mas que era perfeitamente fazível numa hora e meia!! Era era...

Saio do abastecimento decidido a recuperar algum tempo, apanhei algum do pessoal que tinha estado menos tempo no abastecimento - a Isabel, a Su e o Adelino, e juntos seguimos com o objectivo de chegar ao km 34,3 antes da barreira horária.
À saída do Candal seguimos por um estradão, inicialmente a subir ligeiramente e que depois começa a descer, atravessamos a estrada (onde aparece uma vez mais o meu Pai e a Helena a apoiar, incansáveis!!!) e seguimos para nova descida em direcção ao rio; nesta fase já cansado e com calor brutal, a descoordenação motora era por demais evidente!! Chegados ao rio aproveitámos para refrescar, sentar na água, saímos dali todos molhados mas o calor era tanto que rapidamente secou tudo! Daí para a frente (estávamos com 33,3km) , esperava-nos uma subida que parecia interminável, exposta ao sol e sem trilho mas que, olhando para o gráfico no dorsal e que confirmava o que constava do regulamento, seria "apenas" 1km de subida até ao abastecimento e posto de controlo.
Só que não..... Passamos o 34,3, o 35, 35,5 e começamos a descer em direcção à Cerdeira. Há uns minutos que eu já tinha percebido que o PC estava mal, e tinha-me adiantado ao resto do grupo numa tentativa de chegar a tempo.
Era ali que devia estar o PC da Cerdeira

36k e nada ainda do PC, resta-me pouco mais de 1 minuto para as 9h e a barreira horária... 
Aos 36,4k chego ao abastecimento / Posto de Controlo. 

O relógio marcava 9h01'. O responsável do abastecimento avisa-me logo que já não posso seguir, já fechou.
Como?? 
Esta informação foi fornecida pela organização.
Estava no regulamento, no guia do atleta e no dorsal

Ok, tenho perfeita noção que estava a fazer uma prova de m****, mas porra! Cheguei a um Posto de Controlo que estava colocado 2km à frente do indicado em tudo quanto era sítio, apenas 1 minuto após a hora de fecho. Estavam condições de calor extremo que levaram a organização a ter bom senso de colocar alguns abastecimentos de água extra, mas não há o bom senso para permiti que siga???
Podia não conseguir terminar mesmo assim, mas não é isso que está em causa aqui. 

Regras são regras e são para cumprir seja em que caso for, mas se assim é tem de ser para ambas as partes! 
A juntar a isso, de realçar também a arrogância, prepotência e falta de bom senso do responsável do PC. 
Entretanto chegaram mais atletas, seríamos ao todo uns 15 a mostrar nos relógios que o PC estava cerca de 2k à frente do indicado, mas ele teimosamente afirmava que nós é que estávamos mal e que o PC estava no máximo aos 35!!! Engraçado que já depois da prova falei com mais atletas e todos confirmam que aquele PC estava muito à frente do indicado! Não faço ideia se ele algum dia irá ler estas linhas, mas para o caso de as ler, admitir que estamos errados é uma qualidade muito valiosa, chama-se humildade e isso faltou em demasia às 15h do dia 17 de Junho de 2018. 

Pela 1ª vez fui barrado numa prova, há sempre uma 1ª vez para tudo e a minha foi agora. 
Sei que fiz uma prova miserável, mas não posso aceitar que uma prova que faz parte dos circuitos nacionais, com mais de 1000 atletas a competir, continue a cometer erros destes em todas as edições (basta procurar por relatos do Louzan Trail das edições passadas e verifica-se que são recorrentes os erros na localização dos abastecimentos / PC ). Não vou afirmar que nuca mais voltarei a esta prova, até porque tenho a certeza que numa próxima ida à Lousã as coisas irão correr melhor, mas vai ser difícil lá voltar sem ter a certeza que estes erros básicos foram corrigidos e deixaram de acontecer...

terça-feira, 12 de junho de 2018

VIII Ultra de Sesimbra

Pelo 4º ano consecutivo rumei a Sesimbra para participar nesta prova; nos 2 primeiros anos participei na versão mais curta, no ano passado e este ano na versão Ultra.


Dia da prova, saí de casa pouco mais de 1h antes da prova começar. Fui buscar o meu camarada Paulo Sousa que se ia estrear nas Ultras e seguimos viagem nas calmas. Cerca de uns 25 minutos depois estávamos a estacionar o carro. Colocar mochila e seguir para a partida nas calmas, ainda havia muito tempo!
Euipa OCS Proaventuras presente!

Na partida muitas caras conhecidas lembram que aqui corre-se em casa! Muitos elementos da equipa, muitos amigos, muitos conhecidos levam a que se esteja ali na conversa, a tirar fotos sem pensar muito no que está para vir! 

Pouco depois das 9h é dado o sinal de partida. Uma partida sempre rápida com a saída da praça da Califórnia e a entrada na marginal a descer, mas rapidamente o ritmo acalma quando derivamos da marginal para a areia. Na minha opinião esta derivação era completamente desnecessária, penso que não acrescenta nada e chateia logo ao início termos de ir pela areia da praia... adiante! Voltamos à estrada mais à frente e seguimos em direcção ao clube naval e a 1ª subida, para entrar no acesso para a praia da Ribeira do Cavalo. 


Nesta subida o ritmo abranda, meto a passo assim como a maioria do pessoal. Ainda vamos todos perto uns dos outros, o Paulo Alves um pouco à frente, depois eu e uns metros atrás vêm o Paulo Sousa e o Eurico. Entramos no acesso à praia da Ribeira do Cavalo e aqui abrando um pouco nas zonas que podem ser mais escorregadias; as solas dos Wings 8 já apresentam algum desgaste e a entorse que fiz no ESTRELA GRANDE TRAIL ainda não está completamente sarada, ainda sinto uma ligeira dor nalgumas situações. Sou passado por alguns atletas, mas não é importante, sigo no meu ritmo e assim que entramos na subida imediatamente a seguir tento aumentar um pouco a passada e passar alguns. 

Alcançado o topo aumento o ritmo e passo grande parte dos atletas que me passaram na descida, incluindo o Paulo e o Eurico. Queria aproveitar aqui para rolar, pois sabia que cerca do k10 havia nova descida muito técnica, para o Forte da Baralha e iria ter que abrandar bastante o ritmo aí.
Assim fiz, nessa descida abrandei bastante, e assim que cheguei lá abaixo sabia que a parte mais técnica da prova estava feita, depois era só rolar!! 
Segui em direcção ao Cabo Espichel onde estava o 3º abastecimento, e onde apanhei o Paulo e o Eurico. 
Seguimos juntos aqui pelas arribas em direcção à Praia da Foz na zona do Meco. Ritmo sereno e conversa animada, rapidamente chegámos ao 4º abastecimento. Encher flasks e comer um bocado de melancia e toca a andar!! 

Aqui a prova seguia por estradões e estava a tornar-se um pouco monótona... 
Cerca do k27 para ajudar a acabar com essa monotonia a ligadura que levava no pé esquerdo saiu um pouco do sítio e começou a magoar-me, cada passada era uma dor imensa. Assim que cheguei ao abastecimento ao k30 sentei-me imediatamente e saquei a ligadura fora. Problema resolvido, passei ao seguinte que foi hidratar e comer. A hidratação consistiu em quase uma garrafa de 1l despejada em cima de mim e encher os flasks! Aqui disse ao Paulo para seguir, ee está em grande forma, treinou imenso e era a 1ª Ultra dele. Cada 1 com os seus demónios, amigo não empata amigo e vemo-nos no final!! Eu já começava a antecipar o que aí vinha, começava a sentir os gémeos a acusar o cansaço acumulado das últimas semanas entre treinos puxados e provas, nomeadamente o EGT.
Segui com o Eurico pedreira acima, e depois a descida para Sesimbra onde se nos juntou também o Miguel Marques que estava também a fazer a sua estreia em Ultras,  que nos leva à entrada do trilho que vai para o castelo. Já fiz este trilho várias vezes, mas nunca me custou tanto como desta vez... Cada 1 a seu ritmo lá fomos como podíamos por ali acima, a meio ainda encontrámos o Francisco Monte que estava do lado da organização que vinha em sentido contrário a dar água a quem precisava. Finalmente atingimos o castelo, dirigi-me à pequena fonte que lá está e molhei-me todo. Aproveitei ainda para descansar um pouco, massajar os gémeos, e esticar as pernas. Depois ainda fui abastecer e comer qualquer coisa e segui. Faltavam cerca de 9k para o final, queria era acabar o mais rápido possível. Descida do castelo, atravessamento da estrada nacional e passamos para o lado de lá. Se no ano passado não gostei desta parte da prova, este ano muito menos, talvez tenha de ir ali treinar mais vezes mas não gosto daquele trilho! 
Chegado ao último abastecimento colocado no k38, enchi os flasks e segui rápido. Aqui já ia com muitas dificuldades em correr e mesmo a caminha não estava fácil, as dores nos gémeos estavam insuportáveis... 
Prossegui como consegui, o tempo passava e nunca mais chegava ao topo, ponto de viragem onde iria iniciar a última descida até à meta. Mas quando aí cheguei as coisas pouco mudaram, pois a descer também sentia dificuldades.. Não estava fácil, entrei na última descida em trilho e aqui, já com a meta ali ao fundo voltei a correr apesar das dores. Entro no alcatrão e olho para o relógio: falavam 7 minutos para as 6h de prova. Pensei, caraças tenho de lá chegar abaixo antes das 6h!! Disparei por ali abaixo e 4 minutos depois estava a cortar a meta lol


Já lá estavam o Eurico e o Paulo. Trocámos comprimentos, um grande abraço ao meu amigo Paulo que concluiu a sua 1ª Ultra com muita qualidade, Grande prova amigo!!



Pernas completamente "desfeitas", atirei-me para o chão e assim fiquei durante um bocado. Depois fui tentar comer alguma coisa, mas o abastecimento ali na meta, aquele que teria melhores condições para ser o melhor abastecimento não tinha praticamente NADA para comer.... inadmissível....

quinta-feira, 31 de maio de 2018

ESTRELA GRANDE TRAIL

Cresci a ver a Serra da Estrela num horizonte não muito distante. Cerca de 50k distavam dos meus lugares de brincadeira para o ponto mais alto de Portugal continental. De onde quer que olhasse lá estava ela, imponente, vestida com o manto branco durante o inverno e o início da primavera, e despida mas ainda assim bela durante os meses de verão. Foram várias as vezes que fomos passear à serra: fazer sku na neve, ver as trutas em Manteigas e a etapa raínha da Volta a Portugal, com a subida à Torre! 
Lembro-me de olhar para aqueles ciclistas e pensar que eram uns heróis, subir assim à Torre!, que brutalidade. Nunca imaginei, naquela altura, que iria um dia também subir ao ponto mais alto da serra não de bicicleta, mas a correr!!!


O Estrela Grande Trail há muito que estava nos planos, só não sabia se era para este ano ou o próximo. A ideia inicial passava por ir a Portalegre ajustar umas contas que ficaram por terminar no ano passado, mas a hipótese de variar este ano também não me desagradava, e por isso acabei por decidir fazer esta prova; em 2019 volto a Portalegre!!

Aproveitando que ia fazer a prova, decidimos ir todos. Tirámos a 6ª feira de férias e fizemos uma viagem calma até Canas, com direito a paragem para almoço junto ao rio Mondego para um agradável e descontraído picnic e o jogo de atirar pedras para o rio, com o Tomás e a Madalena!!

A meio da tarde chegámos a Canas, e a partir daí foi só descansar, comer, hidratar e acabar de preparar as coisas para o dia seguinte.
A vista em Canas para a Serra da Estrela

Para o final da tarde chegaram também o Paulo e a Ana Alves. Iam ficar em Canas connosco e no dia seguinte iríamos todos juntos para Manteigas. Com o Paulo e a Ana há sempre boa disposição, e foi assim que decorreu o jantar e a pequena caminhada que fizemos antes de ir deitar.

4h30' da manhã e toca o alarme do telefone. 2 minutos depois começa a apitar o relógio! Estava na hora de sair da cama, equipar, tomar o pequeno-almoço e arrancar em direcção a Manteigas!

Viagem de cerca de 1h20' feita sem sobressaltos, a apreciar a magnífica paisagem com que fomos brindados assim que começámos a subir de Seia. A apreciar a paisagem, e a concentrar-me para o desafio que estava prestes a começar!!!

Chegados a Manteigas os carros foram estacionados bem perto da zona da partida, e fomos ao secretariado levantar os dorsais, processo que correu bastante rápido e sem sobressaltos. Depois foi tempo de ir tomar café, acabar de equipar e ir para a zona da partida. Estava prestes a começar!!!


Depois de ouvir as últimas indicações dadas pelo Armando Teixeira e a contagem até 0, arrancámos. E arrancámos, logo a subir! E assim seria pelos próximos 6km, até chegarmos às Penhas Douradas. Um trilho que sai de Manteigas serra acima aos "esses", e que nos colocou logo em sentido!! Os 8km que nos separavam do 1º abastecimento no Vale do Rossim não iam ser fáceis!! Apesar de ainda ser cedo, o sol já estava a aquecer e não tardou a estar a transpirar e cheio de calor! Este troço até às Penas Douradas foi feito maioritariamente a caminhar com pequenos bocados de corrida; não convinha forçar pois ainda faltava muito.

Chegados ao largo das Penhas Douradas entrámos num estradão onde já dava para correr e assim se fez. Um pouco à frente já se avistava o lago do Vale do Rossim, estávamos a chegar ao abastecimento. Corríamos agora por terrenos queimados, onde a terra fica mais mole e como que se desfaz à nossa passagem, onde há cotos de árvores queimadas, onde é preciso mais cuidado onde se colocam os pés, não vá fazer-se uma entorse....
C#$%$##"% para isto, foi isso mesmo que aconteceu.... Nessa zona coloquei mal o pé direito, e fui logo ao chão. As dores eram fortes, e à memória veio imediatamente a entorse que fiz no ano passado nos Montes Saloios que me fez desistir da prova e parar 1 mês... Levantei-me calmamente, tentei pousar o pé e avaliar se as dores eram semelhantes; não eram, pelo menos conseguia caminhar.
Comecei lentamente a caminhar e depois a correr, a dor abrandou um pouco, o abastecimento estava ali a 300m e chegado lá iria colocar ligadura. Depois, logo se via!!!
Chegada ao Vale do Rossim

Cheguei ao abastecimento, e já lá estava o Paulo. E a Ana, e o meu Pai e a Lena. Comi um bocado de laranja, banana, enchi os flasks e dirigi-me apressado a umas cadeiras que lá estavam. "Torci o pé ali atrás. Tenho de colocar a ligadura". Soou o alarme, acho que ficaram mais aflitos que eu lol

Ligadura colocada, um "até já" e lá seguimos que estava na hora.

O troço agora até à Garganta de Loriga era um "falso plano", sempre a ganhar altitude mas sem grandes inclinações, dava para ir correndo. Fomos seguindo, de vez em quando lá me dava uma pontada de dor no pé, mas nada demais.
Aqui com o meu amigo Rui

Rapidamente chegámos à Fenda da Nave Mestra, local emblemático da serra da Estrela. Com a minha elegância não tive grandes problemas em passar este obstáculo, apenas alguns cuidados por causa do pé, o receio de o colocar mal era grande. Atravessado este ponto continuamos em direcção à Garganta de Loriga e chegamos aos pontos onde ainda havia neve, ou gelo vá! Engraçado ao início, depois começou a fartar um pouco e a dificultar a progressão. E nisto estávamos no 2º abastecimento, onde só havia líquidos para reabastecer os flasks para a subida para a Torre.



O meu pai aflito pergunta como estava e repondo que estou bem, sem preocupações.



Enchemos e seguimos, mais um bocado de neve para atravessar e entramos na subida para a Torre. Neste ponto já começava a ficar com algumas dificuldades para subir, a fome começava a apertar, começava a sentir-me fraco....

Foi um alívio enorme quando vi a Torre ali à frente, mas os metros custavam a passar...

Chegada à Torre. Foto espectacular tirada pela Ana

Finalmente atingimos o ponto mais alto, muita gente a tirar fotos, a apoiar os atletas. Dirigi-me para o abastecimento, ia faminto e só pensava em comer!!! Peguei logo num bocado de laranja, banana, bolachas e pão, e por fim sentei-me a comer uma taça com bolonhesa. Finalmente estava a recompor o estômago e a acalmar um pouco, a recuperar forças. Esta subida tinha sido mais difícil que o esperado, aliado às ligeiras dores no tornozelo e à fome, sentia alguma dificuldade em respirar devido à altitude. Na verdade, já tinha comentado com o Paulo pouco depois do Vale do Rossim que estava a sentir dificuldades a respirar como nunca havia sentido.
Depois de recomposto o estômago, fui ao carro do meu pai que estava ali ao lado. Precisava de trocar a ligadura que tinha no pé, que estava apertada demais e trocar por um suporte para o tornozelo com compressão que tinha no saco. Aproveitei e troquei também as meias para umas secas, que se mantiveram secas apenas por escassos minutos!!

Aqui a tirar a ligadura e a trocar de meias
Troca feita, era hora de seguir. O Paulo estava bem e seguiu à frente, fez bem pois eu ia mais lento e como se costuma dizer, amigo não empata amigo! Ora depois de chegar ao ponto mais alto, a solução é descer. E assim que saímos da Torre o caminho era para baixo! 1º pelo meio da neve/gelo, e depois de andar uns quantos metros pela estrada, entrámos num trilho paralelo à estrada, com muita pedra e de difícil progressão no estado em que ia.
Esta foto faz jus ao lema da prova: "Enjoy being small"
Segui por ali abaixo com cuidados redobrados para não torcer novamente, até chegar ao cruzamento do trilho com a estrada, onde estavam novamente o meu Pai, a Lena e a Ana e entrar no trilho que guiava pelo Vale Glaciar.


Aqui já mais a direito, era mais fácil correr. Ali sentimo-nos mesmo pequenos entre os montes gigantes... Fui seguindo com calma até chegar a novo abastecimento. Aí havia um pequeno tanque com água fresquinha, onde mergulhei imediatamente as duas pernas; que bem que soube, e não fui o único a seguir esta táctica de refrescamento!! Após uns minutos de molho lá me abasteci e segui caminho. O próximo troço começava com uma subida com inclinações na casa dos 20 a 30% e cerca de 1,5k com 270D+, não foi fácil!!!

Chegado ao topo entrámos num estradão. Soube bem para poder esticar as pernas novamente e voltei a correr, devagar mas ia a correr! Começou também a ameaçar chover e de repente ficou frio, o que obrigou a vestir o impermeável. Um pouco à frente encontrei o Luís e a Goreti que estavam a fazer a prova dos 109k, e colei-me a eles! Soube bem ir com companhia e lá seguimos alegres e na conversa até ao abastecimento seguinte.
Ali aproveitámos para descansar, abastecer de líquidos e seguimos. Até ao Poço do Inferno iríamos juntos, depois as provas separavam-se. O ambiente ia agradável, o ritmo descontraído e o percurso também entrou num trilho bastante agradável, uma espécie de bosque onde dava uma vontade enorme de correr, o meu medo era mesmo o tornozelo....
Chegámos ao Poço do Inferno e separamo-nos, eles ainda tinham quase uma maratona pela frente, eu estava a pouco mais de meia dúzia de km da meta. Mas aqui tive uma surpresa inesperada: mais uma parede para subir, pensava mesmo que já não havia mais subidas daquelas...
Pois bem, se ela ai estava tinha de ser feita por isso lá cerrei os dentes e enfrentei-a. Já ia melhor do pé, no último abastecimento tinha tomado um Ben-U-Ron e as dores estavam a abrandar pelo que a confiança aumentava um pouco.

Chegado ao topo, agora sim era a descer ate Manteigas!! Sempre com cuidado para não torcer novamente mas a ganhar confiança, foi a parte da prova onde me senti melhor.
"Disparei" por ali abaixo a ritmos que ainda não tinha atingido nesta prova, foi o segmento onde me diverti mais.
Aos 43k passo novamente pelo meu Pai e a Lena. A Ana já tinha seguido para Manteigas para acompanhar o Paulo na chegada à meta :)

Incrível a alegria deles ao nos verem, a alegria e motivação que nos transmitem ali naqueles poucos segundos em que passamos por eles. Faltavam 5k, estava a sentir-me muito bem e só queria chegar!!

Continuei com tudo o que tinha e cheguei a Manteigas, uma última rampa a subir e entro na recta da meta, finalmente a passadeira amarela!


Lá ao fundo estavam eles à minha espera. Sigo em corrida pela passadeira amarela, é uma descarga enorme de toda a adrenalina acumulada ao longo de tantas horas de prova, de tanto sofrimento, mas neste momento a certeza que tudo vale a pena.
Corto por fim a meta, estou feliz, todos estamos felizes.
Adoro esta foto, acho que está fantástica!
Apesar de tudo tanto eu como o Paulo acabámos bem. Ficamos por ali a tirar fotos, estava terminada a prova! Demorei mais que o que tinha pensado, bem mais. Mas não esperava tantas dificuldades, nem torcer o pé logo aos 8k. Desistir só era opção se a entorse fosse mesmo grave, assim tive de ir sempre a proteger o pé com cuidados redobrados principalmente a descer.
Com o meu Pai e a Lena
Depois fui tomar banho e, se há algo que há a apontar à organização é aqui: sei que a crioterapia é uma boa terapia de recuperação, mas depois de tanto acho que merecíamos um banho de água quente!!