O que
correu mal? Não sei, neste momento ainda não consegui perceber, mas sei que se
aos 10 e aos 12k, quando tive de fazer paragens forçadas, fiquei na
expectativa, aos 21 em Alegrete tive a certeza que nada ia ser como tinha
planeado.
Foram
meses e meses a treinar, a planear, a imaginar como tudo ia ser. Era a minha
estreia em provas de 3 dígitos, uma ida ao desconhecido, mas se fisicamente
poderia eventualmente não estar bem preparado, psicologicamente sentia-me forte
e decidido a terminar. Nos últimos dias andava mais ansioso, mas acho que era
normal. Ansioso e nervoso, que nunca mais chegava o grande dia!!
Na
semana que antecedeu a prova fui preparando com calma todo o material que ia
levar: mochila com tudo que era preciso, frontal, géis, um shot de cafeína para
tomar a meio da noite, saco para deixar no Marvão com muda de roupa e ténis e
saco para deixar no secretariado com roupa para tomar banho no final. Não houve
grandes treinos, toda a preparação estava feita com maioria dos treinos feitos
entre a serra e o reforço muscular no ginásio.
Chegado
o grande dia, descansei bastante, almocei bem, acabei de rever as coisas e fui
ter com o Cláudio e o Sérgio ao Barreiro para seguirmos juntos. Um ligeiro
atraso deles começou a deixar-me ansioso, mas depois de arrancarmos e chegarmos
a Portalegre com tempo fiquei calmo.
O
levantamento dos dorsais foi super rápido, e depois fomos até à pista tirar
umas fotos.
Depois fomos ao carro, preparar as coisas, colocar os dorsais nas mochilas e seguimos para o restaurante lá perto, onde comemos bastante bem.
Depois fomos ao carro, preparar as coisas, colocar os dorsais nas mochilas e seguimos para o restaurante lá perto, onde comemos bastante bem.
Jantámos
relaxados, e depois ainda antes de ir equipar fomos dar uma volta pela feira do
Trail, onde havia o estrondoso número de UM stand de vendas!!!
Voltámos ao carro para equipar, sem pressas
que tínhamos bastante tempo, e pelas 23:20 começámo-nos a dirigir para a zona
de partida. A azáfama já era grande, e notava-se o pessoal ansioso para que
chegasse a hora de partir. Foi-se cumprimentando pessoal conhecido e lá nos
posicionámos na caixa de partida, onde ficámos a aguardar enquanto se faziam
uns vídeos e tiravam umas fotos!!
Às 00:00, depois de uma pequena contagem
decrescente e ao som dos Gritos Mudos dos Xutos e Pontapés, deu-se a tão
aguardada partida!! O muito público que assistia ladeava os atletas, aplaudia e
incentivava à medida que passávamos. Ambiente BRUTAL!
Segui a um ritmo calmo, sem grandes
pressas. Ia entusiasmado, o ambiente era de festa com imensas pessoas ao longo
do caminho a apoiar, e foi num instante que se chegou ao 1º abastecimento, aos
8 km. Neste abastecimento o ambiente era espectacular, com muita muita gente!
Peguei em 2 pedaços de banana, comi e segui.
Poucos metros depois do abastecimento
entrámos num trilho ligeiramente a subir, ladeado por uns muros baixos, e foi
aí que comecei a sentir a barriga a doer. Ainda tive esperança que fosse
passageiro e não demorasse a passar, mas em vez disso aumentava. A luz do
frontal andava de um lado para o outro, à procura de um local onde fosse seguro
fazer uma paragem técnica! Encontrado um lugar que me pareceu seguro, parei e
fiz o que tinha de ser feito. No trilho, mais abaixo, via os frontais dos atletas
a passar em fila, até que deixei de ver mais luzes alem da minha, quer para trás,
quer para a frente… Quando voltei ao trilho estava sozinho! Sensação de
liberdade à 1 da manhã completamente sozinho no meio da serra, ouvindo apenas
os meus passos e o som dos pássaros! Voltei a correr e consegui apanhar a cauda
do grupo que ia a frente, até que por volta do k12 tive de fazer nova paragem….
Antes de voltar ao trilho tomei um
Imodium, se havia alguma coisa que poderia ajudar seria isso…
Voltei a correr, já não tao solto como
antes, e lentamente fui avançando e transpondo as dificuldades que a organização
este ano reservou para os atletas na 1ª parte da prova, nos outros anos
considerada bastante rolante
Cerca das 3:30 da manhã, já com um
atraso enorme em relação ao que tinha planeado, cheguei finalmente a Alegrete,
local do 2º abastecimento.
Sem muita fome, mas com a consciência
que tinha de comer alguma coisa, peguei num bolo e num pedaço de banana e num
pouco de Coca-Cola, e fui-me sentar a comer. Conforme comi e bebi, deitei tudo
fora… Mal acabo de beber a cola vomitei logo. Passou-me logo ai pela cabeça desistir,
mas não ia deitar a toalha ao chão tao facilmente. Levantei-me e fui buscar um café.
Voltei a sentar e bebi o café calmamente. Já passava das 4 da manha quando me
decidi a levantar e seguir. Mas era claramente um dia Não. Assim que estou a
sair de Alegrete, ligo o frontal e começa a dar sinal de bateria fraca. WTF??? JÁ????
Supostamente a bateria devia aguentar a noite toda, ainda mais quando andei em
modo poupança em zonas com luz… Siga, troquei a bateria por pilhas e segui. Com
isto tudo arrefeci e custava a correr. Segui com uma passada rápida, alternando
ocasionalmente com corrida. Seguia sozinho, e o foco era chegar o mais rápido possível
às antenas, local de abastecimento aos 31k. Entretanto começava a clarear, e
com o nascer do dia parecia voltar a vontade e a força para correr.
Eram 6 da manhã, nunca nos piores
pesadelos imaginei chegar aos 31k tão tarde, quando cheguei ao abastecimento. Comer
muito não arrisquei, em vez disso continuei com banana e bolos, bebendo
coca-cola e isotónico. Depois de descansar um pouco lá segui.
E aqui, já com o frontal arrumado e o
sol a subir, voltei a correr. Foi o segmento da prova que corri mais, deste
abastecimento até S. Julião.
O terreno também ajudava, maioritariamente a descer, disparei por ali abaixo e passei imensos atletas. Apenas abrandei para atender o telefone, quando a Bela e os miúdos me ligaram para falar comigo e saber como estava. Que bem que soube este telefonema…
O terreno também ajudava, maioritariamente a descer, disparei por ali abaixo e passei imensos atletas. Apenas abrandei para atender o telefone, quando a Bela e os miúdos me ligaram para falar comigo e saber como estava. Que bem que soube este telefonema…
Rapidamente cheguei ao abastecimento de
S. Julião. Assim que lá chego recebo um telefonema do meu pai, a dizer que
estava no Marvão. Digo-lhe que estou atrasado em relação ao que tinha estimado,
e para ir ter comigo a Porto da Espada.
Saio do abastecimento e sigo, decidido a
recuperar algum tempo que tinha perdido. Por volta do k45 apanhamos 2
autenticas paredes brutais, onde a ascensão é bastante lenta. Com o sol a bater
em cima, é necessário parar diversas vezes, mas nem isso deita o animo abaixo. Assim
que chego la acima, em solo espanhol, volto a correr com o foco bem definido:
chegar rapidamente ao abastecimento.
Devia ser por volta das 10.30 quando
cheguei, não sei bem que horas eram… ver lá o meu Pai e a Lena deu ânimo, e o
cheio a bifanas acabadinhas de fazer ajudou!!
Agarrei-me a uma, se calhar com demasiada pressa! A juntar à bifana foi um pouco de Coca-cola fresca, que soube muito bem mas não deve ter feito muito bem. Comecei sentir o estômago pesado, sentei-me e voltei a vomitar..
Agarrei-me a uma, se calhar com demasiada pressa! A juntar à bifana foi um pouco de Coca-cola fresca, que soube muito bem mas não deve ter feito muito bem. Comecei sentir o estômago pesado, sentei-me e voltei a vomitar..
A preocupação instalou-se, equipa de
bombeiros veio ver o que se passava. Glicemia estava OK, mas a tensão baixa.
Diarreia, vómitos e tensão baixa são sintomas de desidratação. Aconselham a
ficar por ali; o meu pai também… ligo para casa, tinha de ouvir a Bela e os miúdos,
eles iam ajudar a tomar a melhor decisão. De lágrimas nos olhos, depois de
muito pensar, comunico a decisão: vou ficar por ali…
Voltei para Portalegre, almocei e fiquei
bem. Depois jantei, e nos dias seguintes também, e não voltei a ter problemas
de estômago. Dizem que provavelmente foi ansiedade, nervos, não sei… mas foram
muitos meses a treinar para estar bem nesta prova, muitos noites a adormecer a
pensar como tudo ia acontecer. Terá sido? É capaz, é algo que tenho de perceber
e evitar que volte a acontecer…
Quanto à prova, do que fiz, adorei. O
ambiente na arena era brutal, o apoio nos primeiros km idem. Os abastecimentos
tinham tudo que poderíamos querer, e as marcações estavam impecáveis, de um
ponto viam-se meia dúzia de reflectores, espectacular.
Tenho imensa pensa de não ter terminado,
mas analisando agora a frio sei que tomei a melhor opção. Se calhar era mesmo
assim que era suposto acontecer…
De uma coisa tenho a certeza: em 2018
voltarei a estar na arena às 00:00 para o arranque do UTSM 😉












